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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Cadê o juízo do menino?



Cadê o juízo do menino? é o primeiro livro de Tino Freitas, do blog Roedores de Livros. Com ilustrações de Mariana Massarani, foi lançado no 11º Salão FNLIJ.

Para homenageá-lo fiz alguns versinhos!


Eu já sabia que ia rir um bocado
com a história deste menino desparafusado.
Só não contava com a novidade
desta dupla tão esperta,
pois fiquei baratinada
a procurar em cada página
todas aquelas peças.

Se você quer saber quais são

e ler os versos tão ritmados
que mais parecem uma canção,
corra para a primeira livraria
antes que perca a razão.

Levei logo um para a escola

pois não faltam em todas elas,
crianças distraídas e sem juízo como aquela.


Destaco já uma página,

especial para todas as professoras
que se sentem destemperadas
com crianças destrambelhadas.

Na biblioteca da Flipinha,

Tino fazia mediação
divertindo a criançada
com suas rimas bem animadas.

Saí de lá encantada

tal qual menina aloprada
afinal lendo tanta história boa
quem não fica  desparafusada?

Para terminar, minha gente

que se diz ajuizada,
faça como eu, Tino, Mariana e Ana Paula:
Abrace a idéia dos Roedores de Livros!
Leia, sonhe, dê boas risadas.
As crianças agradecem
e não custa nada!


Que tal escolher um livro e escrever sobre ele em verso ou prosa?

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Orelhas de Mariposa



Mara tem orelhas de abano e é vítima de chacota das outras crianças. No entanto, tem uma mãe incrível. Ela lhe diz que tem orelhas de borboleta, "...orelhas que giram no ar e colorem as coisas feias."

A partir daí, a personagem tem sempre uma resposta interessante na ponta da língua.

"- Mara só lê livros usados!

- Não!

- É que mais de mil mãos já os acariciaram."

Luisa Aguilar escreveu e André Neves ilustrou com olho de criança curiosa e sensibilidade de artista de primeira grandeza. Do original "Orejas de Mariposa" (Kalandraka), o livro já foi traduzido em oito línguas e aqui no Brasil foi editado pela Callis.

Como para cada história lida é bom que se crie outra, conte a sua história ou invente uma resposta tão inteligente quanto a de Mara.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Elias José



 Imagem: Roedores de Livros
A poesia pede passagem"

E os anjos do céu brincam

embalados pela "ciranda brasileira"

na companhia de Elias José.

Certamente, o Criador reservou uma morada para quem acreditava que "a escola virou morada do inventor!"

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Com a palavra, Ricardo Azevedo



Nunca imaginei que aquele autor cujas histórias eu contava e recontava poderia responder ao meu e-mail e, ainda mais, me enviar um de seus inúmeros livros. Quanta gentileza e humildade, atitudes raras nos dias de hoje!

Os contos, adivinhas, quadrinhas eram recontados e ilustrados com graça e sensibilidade pelo mestre Ricardo Azevedo em seus livros Meu Livro de Folclore e Armazém do Folclore, Ed. Ática.

 Contos de tradição oral sempre me atraíram. As compras na Bienal e Salão do Livro eram esperadas com ansiedade. Mostrava, orgulhosa, os títulos adquiridos e ouvia: "Mais folclore, menina?" Os livros já não cabiam na caixa "Histórias de Trancoso". Fazer o quê se está no sangue a vontade de ouvir, ler e contar histórias? Coisas do meu avô João, um mulato sergipano, nascido antes da libertação oficial, fazendeiro, salineiro, canoeiro, festeiro, contador de histórias e leitor. Deslumbrada, pedia sempre para mamãe repetir um conto de enganar a morte que está no livro do Ricardo com o mesmo título; claro que  muito mais bem contado por quem respira poesia ao reescrever antigas histórias.

Pois é, venci a timidez e escrevi contando sobre os meus subprojetos, fios da grande Teia de Histórias pela conquista de leitores e contadores: um de resgate da tão desvalorizada literatura oral e outro que procura aproximar o leitor de escritores e ilustradores através da leitura das obras e biografia. Falei também dos ouvidos atentos, dos olhares embevecidos, das palmas e do "conta mais uma!" Só não pude ainda mostrar as xilogravuras improvisadas com material de sucata.

Deleitem-se com Contos de bichos do mato. O livro tem 24 narrativas contadas e recontadas pelo povo "acostumado a lutar contra todas as adversidades usando ardis, malandragens e espertezas para sobreviver. Para entendê-las, é necessário lembrar que não é possível exigir que a moral de uma sociedade justa e equilibrada seja a mesma de uma sociedade desigual onde cada um luta por si para vencer a fome, a tirania, a crueldade".




Seria interessante que lessem também No meio de uma noite escura tem um pé de maravilha!:contos folclóricos de amor e aventura  (Ática), e ainda Contos de espanto e alumbramento (Scipione), todos com ilustrações do autor.







Conheçam o saboroso site do Ricardo Azevedo. É para ser apreciado sem pressa. Degustem entrevistas e matérias publicadas, trechos de livros, sinopses, artigos, ilustrações e muito mais. Sinta o cheiro de maçã! Imagine. Crie. Conte muitas histórias.Alumbre-se!

Recomendo para mediadores e professores a leitura dos seguintes artigos:

Conto popular, literatura e formação de leitores;

Formação de leitores, cultura popular e contexto brasileiro;

Literatura infantil: origens, visões da infância e certos traços populares;

Elos entre a cultura popular e a literatura.

Ah, não poderia deixar de lembrar que a sabedoria do povo está presente também nas quadrinhas poéticas. Fiquem com esta:
Não é por andar com livros

que a gente vira doutor

as traças vivem com eles

não sabem lê não senhor.

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

Provérbios Modificados

Se conselho fosse bom era vendido em euro.
Quem espera se atrasa.


Caio de Almeida Santos - 603

A galinha do vizinho, de tão gorda, morreu.
Quem brinca com fogo está procurando encrenca.


Tamires Felix do Nascimento - 603

Faca que não corta está cega.
Quem espera, sempre chega tarde.


Rayr de Jesus Cutrim - 603

Quem está na chuva é mendigo.
De grão em grão, o chinês faz o pão.


Ariane de Almeida Moreno - 603

domingo, 2 de outubro de 2005

FELICIDADE



O Segredo da Felicidade



Pior que não ver é não ter visão.
Helen Keller

     Há uma fábula maravilhosa sobre uma menina órfã que não tinha família nem ninguém para amá-la .Certo dia, sentindo-se excepcionalmente triste e sozinha, ela foi passear por um prado e viu uma pequena borboleta presa em um arbusto de espinhos. Quanto mais a borboleta lutava para se libertar, mais os espinhos cortavam suas asas frágeis. A menina órfã libertou cuidadosamente a borboleta de sua prisão de espinhos. Em vez de voar para longe, a pequena borboleta transformou-se numa bonita fada. A menina esfregou os olhos, sem acreditar.
     - Por sua maravilhosa gentileza - disse a boa fada à menina - vou realizar qualquer
desejo que você escolher.
     A menina pensou um pouco e depois respondeu:
     - Eu quero ser feliz!
     A fada disse:
     - Muito bem - e, inclinando-se na direção dela, sussurrou alguma coisa no seu ouvido.Em seguida, a fada desapareceu.
     Enquanto a menina crescia, não havia ninguém na região tão feliz quanto ela. Todos lhe perguntavam o segredo da sua felicidade. Ela apenas sorria e respondia:
     - O segredo da minha felicidade é que ouvi o que uma boa fada me disse quando eu era menina.
     Quando estava bem velhinha, em seu leito de morte todos os vizinhos se reuniram
à sua volta, com medo de que o maravilhoso segredo morresse com ela.
     - Conte, por favor - imploraram eles - Conte o que a boa fada disse.
     A adorável velhinha simplesmente sorriu e respondeu:
     - Ela me disse que todo mundo, por mais seguro que pareça quer seja velho ou
novo, rico ou pobre, precisa de mim.





The Speaker"s Sourcebook
In: Histórias para aquecer o coração.
Editora Sextante.




Para ser feliz o maior segredo é estar bem consigo mesmo.
Jean de la Fontaine


Feliz aquele que ensina o que aprende e aprende o que ensina.
Cora Coralina


E para você, qual é o segredo da felicidade?

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

Se conselho fosse bom...

Bom Conselho


Ouça um bom conselho
Que lhe dou de graça
Inútil dormir
Que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado
Quem espera nunca alcança.
Ouça, meu amigo,
Deixe esse regaço
Brinque com o meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar.
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que
Não se vai longe.
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo e a tempestade.




Chico Buarque. In Literatura Comentada.
São Paulo, Abril Educação

Se quiser, ouça a música clicando no link abaixo:

Bom-Conselho-chico-buarque
Na letra desta música, Chico Buarque recria provérbios. Qual seria sua intenção?

sexta-feira, 16 de setembro de 2005

Moral da História




Amigo que não serve, faca que não corta, que se perca, pouco importa.

Quem com os porcos convive, um dia virá a comer lama.

Gato escaldado tem medo de água fria.

Quem ri por último, ri melhor.

Em boca fechada não entra mosca.

O fim de uma história depende sempre de quem a conta.

Será?

Provérbios são pequenas frases usadas pelo povo com a intenção de expressar verdades, conselhos de vida,
lições de moral. Conhecidos humoristas modificaram alguns provérbios:

"Se não puder vencer o inimigo, corra.

Quem ama o feio... namora em casa!

Quem com ferro fere, vai preso!

Quando um não quer, o outro insiste!"

O Grande Livro de Pensamentos de Casseta
e Planeta.Rio de Janeiro. Record,l995.

"Quem semeia vento, não colhe nada.

Devagar se vai a pé.

De médico, poeta e louco, todos nós temos algum na família.

Dono morto, burro solto."

Improvérbios. Jô Soares, em Veja, 1990.

"Só quem tem calos entende de apertos.

Não há banquete, por mais rico, em que alguém não jante mal.

Ladrão que não é apontado já é um tantinho honrado."

Provérbios Proverbiais. Millôr Fernandes, em Isto É Senhor, 1990.

Todas as línguas têm seus provérbios:

Agora é sua vez.
Seja criativo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

Parodiando




 

Como na Contrafábula da cigarra e da formiga,
muitos artistas contemporâneos fazem paródia, isto é,
criam novos tipos de textos com um toque
de humor.


Os poetas a seguir também expressam sua opinião:

Sem barra

Enquanto a formiga
Carrega comida
para o formigueiro,
A cigarra canta,
Canta o dia inteiro.


A formiga é só trabalho.
A cigarra é só cantiga.


Mas sem a cantiga
Da cigarra
Que distrai da fadiga,
Seria uma barra
O trabalho da formiga.


PAES, José Paulo. Poemas para brincar.
São Paulo:Ática.


HAI-KAI

Acabou a farra
formigas mascam
restos de cigarra.


Paulo Leminski

HAI-KAI é um gênero tradicional da poesia japonesa.
O poema é composto de apenas três versos.


Humor em Quadrinhos








Todos têm um pouco de cigarra e de formiga. De que forma
isto acontece com você?

domingo, 4 de setembro de 2005

Trabalho e Arte

                                                          



Ilustração de Gustave Doré para a fábula A cigarra e a formiga, de La Fontaine.

Observe  que os animais personificados da fábula aparecem aqui como figuras humanas: a cigarra, como violonista; a formiga, como dona-de-casa.




A CIGARRA E A FORMIGA

Tendo a Cigarra cantado
durante todo o verão,
viu-se ao chegar o inverno
sem nenhuma provisão.


Foi à casa da Formiga,
sua vizinha, e então
lhe disse: - Querida amiga,
podia emprestar-me um grão
que seja, de arroz,
de farinha ou de feijão?
Estou morrendo de fome.


- Faz tempo então que não come? -
lhe perguntou a Formiga,
avara de profissão.
- Faz.
- E o que fez a senhora,


 durante todo o verão?
 - Eu cantei - disse a Cigarra.
 - Cantou, é? Pois dança, agora!


La Fontaine

Contrafábula da cigarra e da formiga

A formiga passava a vida naquela formigação, aumentando o rendimento da sua" capita" e
dizendo que estava contribuindo para o crescimento do produto nacional bruto. Na
trabalhadeira do investimento, sempre consultando as cotações da bolsa, vendendo na alta e comprando na baixa, sempre atenta aos rateios e às subscrições. Fechava contratos em Londres já com um pé no Boeing para Frankfurt ou Genebra, para verificar os dividendos de suas contas numeradas.Mas vivia também roendo-se pordentro ao ver a cigarra,com quem estudara no ginásio, metida em shows e boates,sempre acompanhada de clientes libidinosos do Mercado Comum. E vivia a formiga, a dizer por dentro:
- Ah, ah! No inverno, você há de aparecer por aqui, a mendigar o que não poupou no verão! E
vai cair dura com a resposta que tenho preparada para você!
Ruminando sua terrível vingança, voltava a formiga a tesourar e entesourar investimentos
e lucros, incutindo nos filhos hábitos de poupança, consultando advogados e tomando vasodilatadores.
Um dia, quando voltava de um almoço no La Tambouille com os japoneses da informática, encontrou a cigarra no shopping Iguatemi, cantarolando como de costume. "Lá vem ela dar a sua facada!" pensou a formiga. "Ah, ah, chegou a minha vez!"
Mas a cigarra aproximou-se só querendo saber como estava ela e como estavam todos no formigueiro. A formiga, remordida, preparando o terreno para suavingança,comentou:
- A senhora andou cantando na tevê todo este verão, não foi, dona Cigarra?
- É claro! disse a cigarra. - Tenho um programa semanal.
- Agora no inverno é que vai ser mau... - continuou a formiga, com toda a maldade na voz. - A senhora não depositou nada no banco, não é?
- Não faz mal. Os meus discos não saem das paradas. E acabei de fechar contrato com o Olympia de Paris por duzentos mil dólares...
- O quê?! - exclamou a formiga. - A senhora vai ganhar duzentos mil dólares no inverno?
- Não. Isso é só em Paris. Depois, tenho a excursão a Nova York,depois Londres, depois
Amsterdam...
Aí a formiga pensou no seu trabalho, nas suas azias, na sua vida terrivelmente cansativa e
nas suas ameaças de enfarte, enquanto aquela inútil da cigarra ganhava tanto, cantando e se divertindo! E perguntou:
- Quando a senhora embarca para Paris?
- Na semana que vem ...
- E pode me fazer um favor? Quando chegar a Paris,procure por um tal La Fontaine e diga-lhe
que eu quero que ele vá para o raio que o parta!


Antônio A. Batista



E você é cigarra ou formiga?

domingo, 28 de agosto de 2005

Fábulas Modernas





O DESTINO
(À maneira dos... coreanos)


Encontraram-se os dois chineses.
- Olá, Shen. Tau, por onde andou?
- Ah, passei seis meses no hospital, Shin-Fon.
- Eh, isso é mau!
- Nada. Isso é bom: casei com uma enfermeira bacaninha.
- Ah, isso é bom!
- Que o que - isso é mau. Ela tem um gênio dos diabos.
- É, isso é mau.
- Não, não, isso é bom; o avô dela deixou uma herança e eu não preciso trabalhar porque ele acha que só eu sei cuidar do gênio dela.
- Oh, oh, isso é que é bom!
- Oh, oh, isso é que é mau! Com o gênio dela, às vezes não me dá um níquel. E como eu não trabalho, não tenho o que comer.
- Xi, isso é mau!
- Engano, isso é bom. Eu estava ficando gordo e mole - vê só, agora, o corpinho com que eu estou.
- É mesmo - isso é bom!
- Que bom! Isso é mau. As pequenas não me deixam e acabei gostando de outra.
- Epa, isso é mau mesmo.
- Mau nada, isso é bom. Essa outra mora num verdadeiro palácio e me trata como um príncipe.
- Então isso é bom!
- Bom? Isso é mau: o palácio pegou fogo e foi tudo embora.
- Acho que isso é realmente mau!
- Mau nada: isso é bom. O palácio pegou fogo porque minha mulher foi lá brigar com a outra, virou um lampião e as duas morreram no incêndio. Eu fiquei rico e só.
- Isso... é bom... ou é mau, Shen-Tau?
- Isso é muito bom, Shin-Fon.


MORAL: NADA FRACASSA MAIS DO QUE A VITÓRIA, E VICE-VERSA.

(FERNANDES,Millôr. Fábulas Fabulosas.Rio de Janeiro: Nórdica, 1997.)

A sátira a aspectos convencionais da vida social é frequente nos textos de Millôr . Leva o leitor a rir, a pensar e pensar-se. Sua maneira de narrar contrasta com a seriedade da fábula tradicional.
Passamos nossa vida optando entre o certo e o errado,entre o bem e o mal. Sabemos que as normas morais
variam entre sociedades, mas alguns indivíduos criam sua moral particular e não levam em consideração
o bem comum. A justiça, a solidariedade, a fidelidade, a honestidade são valores morais universalmente aceitos. Nesta fábula notamos que levar vantagem sobre o outro é uma prática tão antiga quanto a existência do homem. "Isso é muito mau!".


Perder ou ganhar? Eis a questão!

domingo, 21 de agosto de 2005

Podres poderes

"Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais."


Caetano Veloso

Os animais e a peste

Em certo ano terrível de peste entre os animais, o leão, apreensivo, consultou um mono de barbas brancas.
- Esta peste é um castigo do céu - respondeu o mono, e o remédio é aplacarmos a cólera divina
sacrificando aos deuses um de nós.
- Qual? - perguntou o leão.
- O mais carregado de crimes.
O leão fechou os olhos, concentrou-se e, depois duma pausa,disse aos súditos reunidos em redor:
- Amigos! É fora "de dúvida que quem deve sacrificar-se sou eu. Cometi grandes crimes, matei centenasde veados, devorei inúmeras ovelhas e até vários pastores. Ofereço-me, pois, para o sacrifício necessário ao bem comum.
A raposa adiantou-se e disse:
- Acho conveniente ouvir a confissão das outras feras. Porque, para mim, nada do que Vossa Majestade alegou constitui crime. Matar veados - desprezíveis criaturas; devorar ovelhas - mesquinho bicho de nenhuma importância; trucidar pastores - raça vil, merecedora de extermínio! Nada disso é crime.São coisas que até muito honram o nosso virtuosíssimo rei leão.
Grandes aplausos abafaram as últimas palavras da bajuladora- e o leão foi posto de lado como impróprio para o sacrifício.
Apresentou-se em seguida o tigre e repete-se a cena. Acusa-se ele de mil crimes, mas a raposa prova que também o tigre eraum anjo de inocência.E o mesmo aconteceu com todas as outras feras.Nisto chega a vez do burro. Adianta-se o pobre animal e diz:
- A consciência só me acusa de haver comido uma folhade couvena horta do senhor vigário.
Os animais entreolharam-se. Era muito sério aquilo.A raposa toma a palavra:
- Eis, amigos, o grande criminoso! Tão horrível o que elenos conta, que é inútil prosseguirmos
na investigação.A vítima a sacrificar-se aos deuses não pode ser outra,porque não pode haver
crime maior do que furtar a sacratíssima couve do senhor vigário.
Toda a bicharada concordou e o triste burro foi unanimemente eleito para o sacrifício.


Aos poderosos tudo se desculpa; aos miseráveis nada se
perdoa.


(LOBATO, Monteiro. Fábulas. São Paulo: Brasiliense,
1999. p. 31

Monteiro Lobato recria e reconta fábulas de Esopo e de La Fontaine, além de contar suas próprias fábulas. Ele acreditava que devemos valorizar nossa cultura. Preocupava-se em preparar as crianças para a vida em sociedade.
Em seu livro Fábulas, a turma do Sítio do Picapau Amarelo comenta as histórias. Como os outros, ele usou
as fábulas para denunciar e criticar as injustiças. É bom lembrar que na época em queele viveu não havia
liberdade de expressão.

Poderosos, bajuladores, covardes, hipócritas não exitam em salvar a própria pele e condenam um inocente.
As mazelas da sociedade e as relações de poder estão retratadas nessa fábula. Embora desiludidos, não
desistamos. "O azar daqueles que não gostam de política é serem governados por aqueles que gostam", disse uma vez um pensador .Ou,então...

"Será que será que será que será
Que essa minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais mil anos?"


Mais uma vez Caetano, porém não podemos fracassar desta vez!

domingo, 14 de agosto de 2005

Justiça para quem precisa


No século XVII, Jean de La Fontaine reescreveu e adaptou as fábulas de Esopo, além de criar novas histórias. Nesta época, valorizavam-se histórias sobre heróis belos e bons, leais e justos, mas os poderosos enriqueciam explorando os camponeses. Para denunciarestas injustiças, La Fontaine, criticava o comportamento da sociedade contando fábulas em versos, pois a poesia, além do teatro, era muito valorizada. Foi neste tempo que começou a separação entre mundo infantil e mundo adulto. As histórias
foram adaptadas para crianças retirando-seos elementos violentos, considerados prejudiciais à educação.Na realidade nem sempre o bem vence o mal e La Fontaine questionava os valores da época e denunciava as misérias da sociedade usando a ironia, pois conspirar contra poderosos levava à morte. Conta-se que para protestar contra a prisão injusta de seu amigo Nicolas Fouquet, superintendente de finanças do rei da
França, Luís XIV, ele publicou a seguinte fábula:










O Lobo e o Cordeiro

Na água limpa de um regato,
matava a sede de um Cordeiro,
quando, saindo do mato,
veio um Lobo carniceiro.


Tinha a barriga vazia,
não comera o dia inteiro.
- Como ousas sujar
a água que estou bebendo?
- rosnou o Lobo, a antegozar
o almoço. - Fica sabendo
que caro vais me pagar!


- Senhor - falou o Cordeiro -
encareço à Vossa Alteza
que me desculpeis, mas acho
que vos enganais:bebendo,
quase dez braças abaixo
de vós, nesta correnteza,
não posso sujar-vos a água.


- Não importa. Guardo mágoa
de ti, que ano passado,
me destrataste, fingido!
- Mas eu nem tinha nascido.
- Pois então foi teu irmão.
- Não tenho irmão, Excelência.
- Chega de argumentação.
Estou perdendo a paciência!
- Não vos zangueis, desculpai!
- Não foi teu irmão? Foi teu pai
ou senão teu avô -
disse ao Lobo carniceiro.
E ao Cordeiro devorou.


Onde a lei não existe, ao que parece,
A razão do mais forte prevalece.



Fábulas de La Fontaine. Tradução de Ferreira Gullar.
Rio de Janeiro, Revan, 1997.

Tantos argumentos para nada? Sempre a decisão dos poderosos sem levar em conta a opinião do cordeirinho?
Sabemos que sem padrões de justiça não é possível administrar a sociedade. A corrupção atinge todas as esferas da sociedade. Estamos num clima de desconfiança generalizada e o desprezo à lei dá lugar ao oportunismo, incentivando comportamentos desonestos.O que podemos e devemos fazer além de
ficar tão somente criticando, pois o povo diz que falar é fácil, difícil é fazer?

domingo, 7 de agosto de 2005

Armação sem limites!


 Esopo morreu vítima de uma mentira inventada pelo povo de Delfos, cidade da Fócida onde estava o mais importante oráculo da Grécia. Conta-se que Esopo ironizou os habitantes  porque não trabalhavam, viviam das oferendas ao deus Apolo e comparou-os a varas flutuando no mar, de longe, parecem algo de valor,
porém de perto nada valem. Então, tramaram uma vingança: esconderam um objeto sagrado na bagagem de Esopo. Acusado de roubo foi condenado à morte e atirado do alto de um rochedo. Mesmo assim, ainda contou mais uma fábula:










O Rato e a Rã

Um rato da terra, para sua infelicidade, tornou-se amigo de uma rã. E a rã, premeditadamente, acorrentou a pata do rato à própria pata. Primeiro foram comer trigo na terra e, depois de se aproximarem da margem de uma lagoa, a rã jogou o rato no fundo da água, enquanto ela própria ficou brincando na água, gritando:

"brekekekecs!". E o infeliz rato afogou-se e morreu, mas continuava emergindo, por estar preso à pata da rã. Um milhafre, ao ver isso, pegou o rato com suas garras. Mas a rã, presa pela corrente, seguiu-o e tornou-se ela também alimento para o milhafre.


Mesmo morta uma pessoa tem força para vingar-se,
pois a justiça divina olha por tudo e sempre
retribui com um castigo igual.


Até quando vamos esperar por um milhafre?
A seguir: Fábulas de La Fontaine.

domingo, 31 de julho de 2005

Esopo, o advogado de defesa



As fábulas foram difundidas na Grécia no século VI a.C. por um escravo chamado Esopo. Nesta época, um povo queria dominar o outro. Diferente de hoje? Só que depois da guerra, o perdedor tornava-se escravo ou era obrigado a pagar impostos ao vencedor. Continuamos escravos? Pagamos tantos impostos para quê?Com sua sabedoria, Esopo conquistou aliberdade, pois livrava seus senhores de embaraços com suas histórias. Conta-se que para defender um político corrupto relatou:



A Raposa e o Ouriço

A raposa estava tomada por pulgas e o ouriço propôs-se tratá-la. Com receio de se machucar ainda mais, ela argumenta: "Senhor Ouriço, deixe estar, se me tira estas pulgas já gordinhas, que nem me chupar podem mais, logo outras sedentas por sangue ocuparão seu lugar".

E disse aos juízes que se condenassem à morte o réu já enriquecido, outros não tão ricos, mas ávidos por roubar, viriam ocupar sua cadeira!

Por ironia do destino, morreu vítima de suas sátiras.

Mas fica para o próximo post.

Imagem: Esopo de Diego Velasquez

segunda-feira, 11 de julho de 2005

Blog agora é aqui!





O fanfarrão

Um atleta de pentatlo, acusado a toda hora pelos cidadãos de falta de vigor, um dia viajou e, ao voltar, depois de algum tempo, vangloriou-se de ter realizado muitasproezas em outras regiões, dizendo que em
Rodes havia dado um salto como ninguém ainda conseguira nos Jogos Olímpicos. Acrescentou que tinha por testemunhas todos os que ali haviam estado e que, por acaso, um dia fossem à sua terra. Um dos presentes, tendo tomado a palavra, disse-lhe: "Mas, meu amigo, se isso é verdade, não precisas de testemunhas,
pois Rodes agora é aqui: salta!".


A fábula mostra que, quando é possível provar algo pelos feitos, toda palavra sobre ele é supérflua.

Esopo: Fábulas Completas.São Paulo: Moderna,l994.

Pois é, já saltei, embora mais pareça um pulinho! Não quero ser pretensiosa, mas está aí o primeiro texto, uma fábula, para ser lido e comentado.